Amostragem de Solo - Metodologias

Vários amigos leram o meu artigo anterior, sobre o papel da Amostragem de Solo na Investigação de Áreas Contaminadas, e pediram para eu desenvolver um pouco mais os detalhes de qual modalidade de amostragem de solo deve ser utilizada para cada situação.

Quem leu o artigo anterior e outros textos meus já deve ter se convencido que a amostragem de solo é a etapa fundamental da investigação de áreas contaminadas, que ela deve ser feita inclusive na zona saturada, que ela é obrigatória para instalação de poços de monitoramento e que ela deve ser feita preferencialmente por Direct Push com liner.

Vou tentar aqui desenvolver o porquê disso e qual modalidade de Direct Push se adequa melhor a cada ocasião.

Inicialmente, olhando para uma situação mais simples, que é a amostragem do solo superficial, até 1,0 m de profundidade, pode-se dizer que praticamente toda metodologia e ferramenta consegue coletar amostras representativas, variando um pouco apenas de acordo com o objetivo e com a substância química de interesse (SQI). Para compostos orgânicos voláteis (VOCs), é obrigatório o isso da metodologia por cravação contínua (Direct Push) com o uso de liners; para metais, é preciso que o material seja de aço inox; para amostragem multincremento, é preciso que seja coletada sempre a mesma quantidade de amostra e essa tenha facilidade em sair do amostrador, e assim por diante.

Fora da situação de amostragem superficial, uma amostragem de solo representativa, incluindo-se aí a sondagem que deve ser feita antes do projeto de instalação de um poço de monitoramento, necessita do uso de liner em cravação contínua, ainda que essa metodologia seja obrigatória (por norma) apenas para a análise de VOCs (NBR 16434). Portanto, um linhas gerais e como regra, a amostragem Direct Push é a única que permite a coleta de amostras de solo suficientemente representativas em profundidades maiores que 1,0 m.

Você deve estar com vontade de perguntar: "Mas e o Trado Manual?"
Essa é uma ferramenta útil, porém, inadequada para os nossos propósitos de investigação de áreas contaminadas, por  dois motivos principais: desagregar a amostra que deveria estar íntegra; e não ser capaz de colher amostras que sejam representativas da profundidade, pois, no trado, vem muito material que desmoronou da parede do furo e/ou perde-se amostra no trajeto do furo até a superfície. Esses problemas podem ser minimizados, mas a um custo de esforço e tempo muito elevados e não vale a pena quando há ferramental Direct Push disponível (no futuro, farei um artigo explicando essas manobras para melhorar a representatividade das amostras no equipamento manual em profundidade).

Vamos então para as modalidades da metodologia Direct Push:

1. Single Tube: disparado o mais utilizado no Brasil, durante muito tempo foi praticamente a única modalidade de Direct Push praticada no país, sendo até, entre os mais antigos de mercado, sinônimo de amostrador com liner. Consiste em um tubo amostrador metálico, tipicamente de 1,40 m de comprimento e 60 mm de diâmetro externo, que contém em seu interior o tubo amostrador liner, com 1,20 m de comprimento e 44 mm de diâmetro. Acima dele, vão hastes prolongadoras de diâmetro menor (tipicamente hastes Aw, com cerca de 32 mm de diâmetro). A composição é cravada, o solo entra no liner que está dentro do amostrador. Aí, a composição é retirada do solo, deixando o furo aberto (!!!!) enquanto é realizado o procedimento de retirada do liner de dentro do amostrador. Após esse procedimento, novo liner é colocado no amostrador e a composição é recolocada no furo de sondagem que estava aberto (!!!!). Nesse processo, ocorre a contaminação cruzada, ou por ter desmoronado material no furo aberto durante a retirada ou recolocação da composição (normalmente nas areias e/ou zona saturada), ou por haver arraste de material da parede do furo que "fecha" (normalmente em argilas). Nesse momento, a amostra deixa de ser representativa.  Imagine qual a representatividade de uma amostra de solo que ficou com o furo de sondagem aberto por 20 minutos, na zona saturada, com camadas diferentes de argila e areia e com a presença de alta concentração de contaminação. Os dados obtidos (análises químicas, PID em campo, ou até descrição tátil-visual) provavelmente não são da profundidade que o profissional está analisando, induzindo a muitos erros de tomada de decisão. É fácil verificar em campo que esse processo está acontecendo porque a composição nunca chega na profundidade anterior, ela sempre para antes e a equipe de sondagem "empurra" a composição para atingir a profundidade desejada e, com essa "empurrada, o liner já vai ter bastante material em seu interior que não é da profundidade de interesse. Sendo assim, a modalidade Single Tube do Direct Push, mesmo sendo cravação contínua com uso de liner, não permite a coleta de amostras representativas, portanto, não deve ser utilizada. Como ilustração desse texto e para que não digam que eu estou exagerando, o texto da norma ASTM D6282 , que rege as amostragens de solo por Direct Push é muito claro ao dizer que a modalidade de tubo único com furo aberto não deve ser utilizada, exceto em raras e especiais ocasiões (ou seja, esse é mais um caso onde a exceção virou regra nos estudos de áreas contaminadas no Brasil).




Como esse texto já está um pouco mais longo do que eu gostaria, falarei sobre as outras modalidades no próximo artigo, no site da ECD Ambiental.

Marcos Tanaka Riyis
Julho/2018

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